The long and winding road…

  1. Camera: SONY DSC-HX9V
  2. Aperture: f/5
  3. Exposure: 1/200th
  4. Focal Length: 35mm

A travessia dos Pirinéus, do oceano atlântico até ao mediterrâneo, por estradas muito secundárias, caminhos florestais, rurais e fora de estrada, à moda TodayAdventure.

A travessia dos Pirinéus, do oceano atlântico até ao mediterrâneo, por estradas muito secundárias, caminhos florestais, rurais e fora da estrada, à moda TodayAdventure.

Com o Ramadão a acertar em cheio no mundo árabe, em todo o quente mês de Agosto, uma ida para Sul não se perspectivava convidativa. Convidativa é sempre a ideia de passar alguns dias de férias do quente mês de Agosto a alguma altitude. Ir para a montanha com calor é sempre fresquinho garantido. Ir para a montanha de moto é também sinónimo de muitas alegrias.

Já há alguns anos que a ideia estava mergulhada em banho maria. Em 20 anos de viagens de moto pela Europa, atravessei muitas vezes essa barreira física que separa os ibéricos do resto da Europa, a maior parte das vezes junto a um dos dois mares: atlântico ou mediterrâneo. É mesmo junto a estes dois mares que a largura dos Pirinéus é mínima e se ultrapassa com mais rapidez e facilidade. Mas esta cadeia montanhosa é também rasgada por alguns vales, orientados na direcção norte-sul, alguns com túneis que muito foram melhorando ao longo dos anos. Há vinte anos, percorrer alguns destes túneis tinha o sabor de grandes aventuras!

Os Pirinéus têm assim sido uma barreira física considerável entre a península ibérica e o resto da Europa, fazendo com que historicamente tenha havido, durante muito tempo, contactos importantes dos habitantes desta península com o continente africano. A origem destes montes - mais “velhos” do que os Alpes, que tanto gostamos de percorrer de moto – remonta a algumas dezenas de milhões de anos atrás na história da Terra. Há 100 milhões de anos, a Ibéria era um mini-continente autónomo, separado da Eurásia (onde estavam a maioria dos países europeus actuais), situado a oeste da região onde se localliza actualmente a França. Por pressão do Golfo da Biscaia, há 80 milhões de anos, e “entalado pela placa africana”, que não o deixava movimentar-se para Sul, este pequeno continente ibérico começou a entrar em choque com a placa eurasiática, dando origem às montanhas que hoje conhecemos como os Pirinéus, num processo que terminou há 20 milhões de anos. Os Pirinéus de hoje são uma versão “tratada” pela erosão, dos montes então formados pelo choque destas duas placas.

Antes que se assustem com uma possível “coça” de geologia :) , vamos ao propósito deste passeio. Depois de tantos anos utilizando os Pirinéus como porta rápida de entrada e saída da Europa central, uma ideia germinava na minha cabeça já há alguns anos: percorrer estas montanhas de uma ponta à outra, numa direcção transversal à “habitual”, entre os dois mares: atlântico e mediterrâneo. E estabeleci que faria a travessia no sentido Atlântico -> Mediterrâneo e pelo lado espanhol, com pequenas incursões em território frencês, se necessário. Estabeleci também que iria fazer isso pelos caminhos mais rudimentares que fosse possível.

Não sabia ainda o que “rudimentar” queria dizer, mas a minha ideia era fazer o essencial da travessia fugindo às rotas mais comuns e aos circuitos turísticos habituais, se possível em parte fora de estrada, indo o máximo ao encontro da cultura tradicional dos povos pirenaicos, sobretudo o do país basco e o povo catalão, curiosamente os povos ibéricos (ou com uma parte ibérica) que mais têm reclamado independência e que têm línguas e dialectos próprios (Andorra constituiu-se como um principado).

Sobretudo na parte dos Pirinéus Centrais, uma estrada corre grosseiramente paralela à fronteira franco-espanhola, chamada (pelos espanhóis) “eixo pirenaico”. É a N260, a rota óbvia. Eu queria fugir dessa rota.

No entanto levantavam-se algumas outras questões:

  • Iria fazer a viagem a solo, como tem sido costume nos últimos anos, na pequena vadiagem tradicional de Verão. Como qualquer “offroadista” sabe, mesmo os mais experimentados e habilidosos, “nunca se vai sozinho para o monte”, e muito menos longe de casa. Ora eu não sou nem experimentado nem habilidoso. No entanto gostava de fazer algum off road, sem perder de vista esta máxima.
  • Na busca prévia de ideias para uma rota, deparei com vários relatos de restrições à circulação fora de estrada em algumas zonas dos Pirinéus. Não sabia o que iria encontrar no terreno, de facto.
  • Perguntava-me até que ponto não gostaria, já no terreno, de dar algumas facadinhas no estilo vadio da viagem e misturar-me com os turistas de vez em quando. Li sobre histórias de grutas de bruxas (abertas ao turismo) no país basco, fui espeleólogo e tinha a curiosidade de lá ir espreitar. E quem sabe de experimentar outras actividades turísticas que me aparecessem pelo caminho.

Não tinham que ser umas férias suadas, nem me iria impôr um percurso ou actividades rígidas. Como diz Jamie Pearson, “Never forget that it’s your vacation and there’s no wrong way to do it. There’s no such thing as a must-see attraction. It you travel all the way to Paris and order room service, that’s your business. Do what feels fun to you.

A cadeia montanhosa pirenaica tem um pouco menos de 500 quilómetros de extensão e os percursos habituais pelas estradas asfaltadas indicam como típicas, distâncias de 800 a 900 quilómetros entre as duas costas, pelas comunidades autónomas espanholas do País Basco, Navarra, Aragão e Catalunha.

Na atribulação que tento sempre evitar mas que se foi tornando habitual, dos dias anteriores à partida, acabei por encontrar e optar por tomar como base do percurso, um trajecto GPS que encontrei na comunidade Wikiloc, aqui:

http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=1131388 .

Descarreguei todo o percurso, que foi percorrido no sentido inverso do que eu pretendia fazer, gravei numa Pen-Drive e esqueci-me do assunto. Talvez pela impreparação e por ter visto outros percursos feitos por motos, não reparei na altura que este em concreto tinha sido feito em bicicleta, em 16 dias, e estava descrito como difícil. Talvez não acreditem, mas só agora, ao redigir o relato, me apercebo disto. Muito do que encontrei pelo caminho, só agora se torna claro!  

Reservei 15 dias para a vadiagem. Dela resultou uma estranha mistura de percurso por estradas muito secundárias, rurais, florestais, algumas incursões todo-o-terreno e muitas variantes ao percurso-base, basicamente para ver alguns dos vales que correm na direcção Sul-Norte e se dirigem para França, e também para actividades mais “à turista”.

Nesta viagem a minha companheira foi o (actualmente) meu “motão”: uma trail Suzuki 350, com a provecta idade de 20 anos, equipada com duas malas laterais oferecidas por um amigo: o António Caldeira. Apesar do tratamento nem sempre meigo que lhe dei, portou-se de forma exemplar e o único percalço foi a perda de um dos dois parafusos que prendem a mandíbula do travão da frente. Que não teve qualquer consequência: fez mais de 1500 kms com um parafuso a menos.  

Alguns números rápidos (mais, ficam para mais tarde no relato):

  • Viagem de ida e volta a partir de Bragança: 3750 Kms
  • 3 dormidas em camping selvagem, 1 em albergue (dormitório), 1 em bungalow em camping, 1 em hotel e as restantes em camping oficial.

Chega de conversa. Algumas fotos para abrir o apetite para o relato que se seguirá.

As cores:

Hotéis de arquitectura futurista no país basco:

Aquilo que nos alegra:

A ETA:

As paisagens:

Grutas onde (alegadamente) se praticaram actos de bruxaria (e foi gente para a fogueira por causa disso):

Elegância animal:

Morte:

Romance:

Mais romance:

Romance hardcore (crianças, por favor, fechar imediatamente o Magalhães) [provamos assim que nos nossos relatos são aceites todas as raças, cores e orientações sexuais]:

Lama:

Pontes suspensas:

Bom povo dos pueblos espanhóis:

As praias fluviais:

Momentos difíceis nos trilhos:

Neve:

Mais paisagens:

Beleza domesticada:

No regresso, passagem pelo deserto das Bardenas Reales:

Todas as viagens são diferentes e todas se prestam a ser contadas de forma diferente. Não sou muito adepto de fazer relatos em jeito de jornal diário e prefiro normalmente organizar as ideias de viagens segundo outras lógicas, mas neste caso parece-me apropriado, de modo que vamos a isto.

Dia 1: Bragança – (proximidade de) Estella - 628 Kms

A partida foi pouco ortodoxa, como são normalmente as minhas partidas. O passeio deste Verão foi “entalado” entre duas obrigações musicais: dois concertos acordados com a banda rock de que faço parte. Um na concentração motard de Bragança, outro nas festas da cidade.

Eram umas 3 da manhã quando cheguei a casa, vindo do concerto. Cansado, sabia no entanto que já dificilmente conseguiria dormir. Fui ao sofá onde havia espalhado todos os itens de que me lembrava ao longo dos últimos dias , juntei algumas coisas que, de cabeça, vi que faltavam, fui buscar as malas e o saco impermeável à garagem e comecei a enchê-los sem grandes pressas.

Pelas 5 e meia, ainda a noite era escura, depois das habituais “fitas” a pegar de kick (não há arranque eléctrico) a Suzuki 350 saiu da garagem, rumo a leste. Fazia frio. O céu não tardou a aclarar-se, poucos quilómetros depois, mostrando as nuvens escuras e carregadas em quase todas as direcções. Caíram os primeiros pingos na estrada e tive de usar todos os meus agasalhos da minha bagagem. Optei, claro, por estradas sempre secundárias. Num mapa da Michelin, são as estradas amarelinhas e brancas, que muitas vezes têm excelente piso e reduzido tráfego. Montado numa moto que não é rápida, é mais interessante e relaxante. A meteorologia anunciava a entrada de uma frente em Portugal, vinda de noroeste, como é hábito. Ia a fugir dessa frente que trazia chuva. O tempo foi gradualmente melhorando, enquanto percorria essas estradas até à zona de Palencia, Burgos, sem história.

O único ponto que merece referência, pelo caminho, e que já visitei duas vezes (fica à distância de um passeio domingueiro desde Bragança), são as Lagunas de Villafafila, a norte de Zamora. Desta vez não visitei e passei apenas bem perto. Estas lagoas estão ligadas à bem antiga exploração de sal na zona e são um dos mais importantes pousos e pontos de passagem de aves migratórias na Europa. Ali se pode encontrar, entre outros, a maior população de abetardas do mundo, estimada em 5000 exemplares. À possibilidade de observação de milhares de aves, junta-se um centro de interpretação e uma interessante visita às ruínas da exploração salina, na população próxima de Otero de Sariegos. É um local que recomendo para uma visita e por isso vos deixo a dica. Mais informações em http://www.villafafila.com/ .

Um mapa que ajuda a localizar as lagoas:

Não sei como é convosco, mas o meu primeiro dia de viagem é sempre estranho. O corpo segue em cima da moto, mas a cabeça está noutro lado. É difícil desligar de uma certa rotina de trabalho, de semanas, meses a fio de vida sedentária. Ainda me pergunto o que estou ali a fazer e os pensamentos ainda resvalam para essa vida que abandonei temporariamente apenas há algumas horas. É só no segundo ou terceiro dia que me deixo embalar pelo ritmo e interrompo mentalmente o ciclo: estrada, paisagens, parar e comer onde e às horas que me apetecer, visitar o que dá na gana, não saber onde vou fazer a minha cama nessa noite.

Naquela “onda” de ser autónomo, levava comigo uma pequena despensa e fui fazendo pequenas paragens para pequeno-almoço e um curto snack. Pela hora “normal” de almoço, o cansaço e sono da “directa” invadiu-me finalmente. Saí da estrada de pouco tráfego numa pequena povoação adormecida, e nas traseiras da igreja, em local ermo e sossegado, a mochila foi a minha almofada por uma ou duas horas. Foi um curto mas retemperador e bem necessário sono.

Depois foram mais quilómetros de planície e paisagens de campos cultivados. Em Espanha, as terras não foram definitivamente abandonadas! Uma das culturas mais visíveis, abundantes e visualmente graciosas é a do girassol.

Não me canso de admirar estes campos coloridos. Mas o interesse da cultura do girassol é muito mais do que estético, claro. Trata-se de uma cultura muito resistente e adaptável ao clima, que se dá numa ampla gama de temperaturas, resistindo bem ao frio e à seca. Não requer cuidados especias e a cultura é total ou parcialmente mecanizável. É essencialmente usada para produzir óleo de girassol, mas as sementes também são usadas como alimento para os pássaros e produção de biodiesel. Das flores pode ser extraído mel. Tudo no girassol se aproveita, até as hastes. Uma bela plantinha! Não admira que seja tão frequente nos campos que atravessei.

Aproveito estas imagens para explicar de que se compõe a bagagem. À frente, ao meio, o pequeno chouriço contém a tenda de 2 camadas e umas xanatas de campismo. De lado, na grelha frontal, vão alguns mantimentos (bebidas, pão, material para sandochas, fruta, conservas), um pequeno fogão a gás e um kit básico de louça de campismo, para além do indispensável papel higiénico. Vão em dois alforges, normalmente usados na parte frontal das bicicletas, e vão presos à grelha dianteira. Nas pequenas malas laterais vão kits de ferramentas, câmaras de ar suplentes, um mini-compressor, um kit de reparação de câmaras de ar, um pc portátil, uma câmara fotográfica reflex que nunca utilizei na viagem (as fotos foram todas tiradas com uma compacta), alguma roupa. No saco impermeável segue mais alguma roupa, os “ferros” da tenda, guias e mapas, o colchão e saco-cama, um saco cheio de carregadores para o equipamento electrónico, um pac safe, para o caso de ser necessário (nunca foi usado). Muito por culpa da falta de treino de uma certa vida nómada, acabo por levar sempre algo a mais do que preciso na bagagem (e a reflex foi o meu grande arrependimento), mas cada vez acerto melhor no estritamente necessário.

Pouco depois da soneca, paragem nesta barragem para um snack.

Se às 3 da manhã estava em Bragança a fazer as malas, às 3 da tarde encontrava este sinal. Nada mau, pequena 350.

Esta região do sul do País Basco, La Rioja, a oeste de Logroño, é afamada pelos seus vinhos. A paisagem era de vinha e as “bodegas” sucedem-se. Por isso foi sem espanto que na povoação de Elciego encontro algo que conhecemos bem do nosso país: a hotelaria e o vinho de mãos dadas.

Vinhas em Elciego:

Elciego e a bodega:

O Hotel de luxo Marquês de Riscal é apenas uma das vertentes da empresa dos herdeiros do Marquês – com uma arquitectura especial. Se quiserem saber pormenores… http://www.marquesderiscal.com/index…dmenu=60&mn1=3

Admirei o futurismo das linhas do hotel, percorri o “casco histórico”…

… e continuei viagem para leste, na direcção de Pamplona. Não tinha intenção de entrar em cidades grandes. Em contrapartida tinha interesse em percorrer reservas e parques naturais que ainda não conhecia. E o país basco era uma incógnita para mim.

A paisagem dividia-se entre vinha a os primeiros sinais das montanhas.

Com a montanha voltou o tempo instável. Deleitei-me com estradas de amplas vistas no sopé destes montes e, já no fim da tarde, encontrei uma povoação chamada Estella, já não longe de Pamplona. Para norte fica uma área natural que merecia algum tempo e uma disposição mais fresca do que a que tinha, depois dos 600 kms percorridos. Não queiram saber como é o banco da Suzuki…. E como a chuva estava eminente, era tempo de procurar local para assentar acampamento. Para não entrar a “matar” no camping selvagem, procurei o camping municipal de Estella. Passei à porta e fiquei horrorizado: cheio como um ovo, muita gente. Não gostei. Queria algo mais natural. Avancei alguns quilómetros para norte onde sabia que existia outro camping. Cheguei à porta. Era de 1ª e tinha bom aspecto, mas qual não foi a minha supresa quando a guapa ao balcão me diz que estava cheio. É difícil de acreditar que não houvesse espacinho para mais uma pequena tenda, mas enrolei o rabinho entre as pernas e preparei-me mentalmente para a primeira noite à la belle étoile. E com chuva, ao que tudo fazia crer. Assim foi. Devíamos estar demasiado próximos de Pamplona e a cidade estava por ali toda a fazer férias.

Sob uma chuva muidinha e um tempo a ameaçar piorar, procurei um local por onde me enfiar e plantar uma tenda. À esquerda, uma central hidroeléctrica desctivada. Mas o terreno estava fechado a cadeado e um cão assegurava que não restassem dúvidas. Um pouco mais adiante, uma rampa em terra batida, com um pedrugulho a tapar parcialmente a entrada íngreme. Para uma moto trail não é um problema. Subo, encontro uma espécie de posto de entrada, com tudo queimado. Subo mais um pouco. O local parece ter sido habitado anteriormente, mas está abandonado. Uma caixa de correio sinistra destaca-se entre a vegetação e o silêncio total. Estava-se bem, não me viam da estrada, e não havia vestígios de passagem recente de gente nem de gado.

É sempre estranha, a primeira noite sozinho num sítio desconhecido. Apresso-me a montar a tenda, antes que chova mais. Estava muito vento, que de resto tinha soprado todo o dia, mas o local onde estou é abrigado. Ouço ao longe, em baixo, os carros. Depois da noite anterior sem pregar olho, o colchão de campismo sabe-me a um colchão Molaflex. Estou a vadiar, caraças. Ainda não me encontrei, ainda não estou no ritmo, mas já cá ando. Não tardo a adormecer.

[CONTINUA]

Tempo para cortar lenha e acender uma fogueira. No nevoeiro transmontano.

  1. Camera: SONY DSC-HX9V
  2. Aperture: f/3.3
  3. Exposure: 1/500th
  4. Focal Length: 4mm

COSTA A COSTA NOS PIRINÉUS. A história de uma viagem de travessia dos Pirinéus, por caminhos manhosos, desde a costa atlântica até à costa mediterrânica. Durante o Verão de 2011, em 15 dias, com partida e regresso a Portugal, num total de 3750 kms.

LAS BARDENAS REALES

Imagens de um passeio de moto numa das mais intrigantes paisagens espanholas: o deserto das Bardenas Reales, na comunidade autónoma de Navarra. A região foi declarada Parque Natural e Reserva da Biosfera, pelo seu valor a vários níveis, entre os quais os valores paisagístico e científico. Para o turista visitante, é evidente a singularidade estética e paisagística que a erosão esculpiu no local. Há uma base militar e um campo militar na zona central do Parque. A circulação de veículos motorizados está muito condicionada na zona e é limitada a alguns caminhos, essencialmente à volta do campo militar. A circulação é interdita desde uma hora antes do pôr do sol até uma hora após o nascer do sol. Não há qualquer povoação no território, embora existam algumas explorações agrícolas, com rega muito controlada, em virtude da escassez de água. Uma paisagem do outro mundo, aqui mesmo ao lado. 

Eis alguns mapas que permitem perceber a situação desta zona.

Estes mapas e outras informações podem ser obtidas no site:  http://www.bardenasreales.es/

O passeio foi dividido em duas partes: uma ao fim da tarde e outra ao início da manhã, as melhores horas para apreciar as paisagens e fazer fotografia e vídeo. Não me perguntem onde passei a noite…

Pequena explicação sobre o automóvel que aparece nas imagens. A região é tão singular que é visitada regularmente por cineastas e fotógrafos para fazerem filmes, e material promocional. Neste caso, estava a ser rodado um filme com a luz fantástica do fim do dia.

As imagens em movimento foram captadas com uma Drift HD170 e as imagens fixas foram captadas por uma máquina fotográfica compacta em modo vídeo (Canon SX200).

As temperaturas negativas instalam-se de mansinho no nordeste, como de costume nesta época. Ainda aqui não chegou a neve, mas o gelo vai cristalizando por toda a parte a vegetação, para deleite de quem se detiver a observar estas formas caprichosas.

  1. Camera: SONY DSC-HX9V
  2. Aperture: f/3.3
  3. Exposure: 1/1000th
  4. Focal Length: 4mm

Nota Inicial: O texto que se segue foi originalmente escrito em 1 de Setembro de 2008 no Forum dos Nomads.

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Por aquilo que alguns chamam de “acaso do destino” - a desistência e regresso mais cedo a Portugal do Paulo Mafra, meu parceiro de equipa no Horizons Unlimited Mountain Madness ( http://www.horizonsunlimited.com/humm/ ) - acabei a passar um dia inteiro, no final de Julho, com o Austin Vince e a Lois Pryce, dois ingleses autores de façanhas verdadeiramente notáveis no mundo das viagens de moto. Provavelmente muito de vós já conhecem estes dois personagens dos livros e DVD(s), mas se não for assim, podem consultar estes “sites”:

http://www.mondoenduro.com/  (Austin Vince)

http://www.loisontheloose.com/  (Lois Pryce)

Vi os DVD(s) das viagens mundiais do Austin vezes sem conta, e li o seu livro Mondo Enduro e o primeiro livro da Lois, que relata a história da sua primeira grande viagem pelas Américas a solo. Tinha uma enorme curiosidade em conhecê-los e a perspectiva de poder trocar algumas imnpressões com eles foi um dos motivos que me levou a empreender uma viagem ao HUMM este ano.

A convite do Austin, que se preocupou com a possiblidade de eu andar a deambular sozinho pelas montanhas dos Pirinéus, acompanhei-o e à Lois, num passeio de seis horas e meia pelos montes pirenaicos, o que foi um enorme privilégio e prazer.

Estava um calor abrasador na zona relativamente baixa em altitude por onde andamos essa tarde e fizemos algum alcatrão para chegarmos à zona cujos tracks queríamos percorrer. O Austin vestia um dos seus característicos fatos de macaco e montava numa velha e suja Suzuki DR 350, o mesmo modelo que o levou por duas vezes em viagens de muitos meses à volta do mundo. É a sexta DR 350 que ele tem. Quatro delas, incluindo as que fizeram o Mondo Enduro e a Terra Circa, foram-lhe roubadas em Londres. Ele deixa as motas destrancadas mas nunca imaginou que quisessem roubar motos tão velhas e feias como as suas, mas por esta altura já deve estar convencido de que isso acontece! :-) Uma das motos ardeu num descuido dele!

O moto não tem piscas e ele faz os sinais de mudança de direcção à antiga, com os sinais de braços/mãos.

Nem ele nem a Lois usam “vestuário motard” daquele que estamos habituados a ver nas lojas da especialidade. Têm ambos capacetes abertos, muito velhos, sem viseira. Ela usa uns óculos de todo-o-terreno que coloca de vez em quando, sempre que o pó é demasiado. Ele usa apenas uns óculos escuros normais muito grandes, com a armação ligeiramente partida. Não deixam dúvidas: gostam de sentir o vento na cara.

A moto da Lois tem as marcas de longas viagens (a sua travessia a solo de Africa) e está danificada em vários pontos. É uma Yamaha TTR250 com um enorme depósito de 22 litros. Aqui peço-lhe excepcionalmente um sorrizito para a foto.

São ambos definitivamente personagens excêntricos e interessantes. Foram eles os mentores do evento nos Pirinéus - uma prova de orientação por mapa - e associaram-se ao talvez maior portal de viajantes de moto de longa distância que existe na internet, para organizar a prova. O portal é propriedade e gerido pelo Grant e a Susan, casal de canadianos que viajaram muito anos pelo mundo com uma velha BMW que compraram acidentada (e que estava nos Pirinéus!), e que actualmente vive em Inglaterra. Na foto seguinte, o casal aparece com o Austin no meio, a ver no meu PDA o clip de apresentação do filme do indiano Gaurav Jani - Riding Solo to the Top of the World.

O Austin é um excêntrico expansivo, com o seu quê de actor. Tem um humor mordaz e “on spot”, e um carácter bem vincado. Parece muito emotivo. A Lois tem o cabelo pintado de ruivo, pareceu-me mais reservada, tem alguma candura no sorriso (concordam?) e parece por vezes um tudo nada “fora de maneiras” subtil (o que não transparece das fotos), o que lhe dá algum charme. É certamente uma grande mulher, que abandonou o seu emprego na BBC para se lançar primeiro numa viagem pelas Américas, depois na travessia de África… sozinha… Escreve muito bem e no seu primeiro livro conta como deixou o seu emprego normal para se lançar à aventura. Perguntei-lhe se voltou a ter um “emprego normal”, depois das suas viagens. Disse-me que não (oh.. no!), que escrevia para uma revista de motos inglesa, a Trail Bike Magazine, e vai retirando alguns proveitos da venda dos seus livros e de eventos que ajuda a organizar, como aquele em que estivemos. Nas suas próprias palavas, “poor but happy”. Quanto ao Austin, a sua actividade principal é o ensino de matemática num colégio de Londres. Dá aulas a jovens na idade equivalente ao nosso preparatório ou início do secundário. Segundo opiniões de pessoal que estava no camping, “the kids absolutely love him”, e percebe-se porquê. Reanimou há uns meses um site sobre as suas viagens ( http://www.mondoenduro.com ) e dá conferências, certamente para angariar alguns “tostões” para a sua próxima viagem. Fiquei surpreendido quando me disse que ainda está a pagar a sua última grande viagem, a Terra Circa, em 2001!!

Os dois casaram-se há cerca de dois anos e estão a planear uma viagem juntos à India durante o verão de 2009. Eu tive o cuidado de não ser intrusivo no passeio com eles - não gosto de ser pau de cabeleira :-) - mas eles mostraram-se pessoas muito simpáticas, afáveis e incrivelmente simples. Começa a ser uma lei para mim: as pessoas de grandes feitos são frequentemente pessoas de uma simplicidade desarmante. Não hesitaram em convidar um portuguesito estranho para passear com eles, e foram ao longo do dia “abrindo a flor”, sobretudo o Austin, que se mostrou verdadeiramente simpático, bem além da cordialidade “normal” que alguns ingleses praticam. Parou uma vez para me mostrar o local onde filmou alguns takes de um dos seus filmes curtos que editou em DVD, outra vez para a Lois lhe tirar o ferrão de uma abelha que se espetou contra o seu peito (ele conduz com o fato de macaco aberto!).

O ritmo de passeio deles não podia ser mais a meu gosto. Em alcatrão, é um ritmo certinho, 80 km/h, por vezes 85 km/h, muito raramente 90 (são motos de 350 e 250 cc!). A atitude a bordo da moto é de total serenidade, de quem já andou muitos e muitos dias a fio a curtir. É preciso ter-se um prazer genuíno, sem falsidades, em andar de moto, para fazer viagens tão longas. Nestes dois, não há qualquer discussão. Podiam passar o resto dos dias a andar de moto, por mais desconfortável que esta fosse. Não há show off, gabarolice, conversa sobre coisas acessórias, nestes dois personagens. Tudo o que eles querem é andar de moto, brincar nos tracks dos montes. Fazem ginástica a bordo para aliviar as dores dos quilómetros. Não param, a não ser para meter gasolina ou contemplar uma paisagem excepcional que não conhecem ainda. Uma perna para o lado, a outra para o outro, alguns minutos de pé.

Fora de estrada, o ritmo deles é bem rolante, nenhum tipo de piso os assusta e rolam com uma regularidade espantosa, mesmo a Lois. Não andam sempre juntos, cada um vai ao seu ritmo e encontram-se nas junções de tracks. O Austin só conduz sentado, mesmo em pisos de pedra solta que em geral todos gostam mais de fazer em pé na moto. A Lois prefere fazer alguns troços em pé. De repente, uma estrada cortada por uma queda de rochas enormes. Não há problema. Conduzimos os três as cabras por cima do amontoado de obstáculos, sem esperarmos uns pelos outros (mas com o Austin paternalmente atento ao portuguesito quando este não vem logo em alguma passagem difícil), eu um pouco surpreendido por se poder transpôr um obstáculo destes com uma moto.

Passamos um dia de grande calor, com uma boa dose de quilómetros, muitos fora de estrada, mas foi absolutamente delicioso andar na companhia destes dois viajantes sem “tangas” (tirem as aspas, se quiserem) e sem compromissos. Não foi um dia de muitas palavras, mas de evidente cumplicidade num prazer que nos une, e de algumas impressões que bastaram para me acalmar a sede de saber mais sobre eles. Trocamos endereços postais, emails, e espero continuar em contacto com eles, pois é muito necessário invocar estes (e outros) verdadeiros motociclistas quando nos tentam vender um “espírito motard” que às tantas já não compreendemos muito bem.

Há um pouco mais de história sobre a prova de orientação, a viagem, metade dela feita na boa companhia do Paulo Mafra, mas vai ter que ficar para outra vez. Visitamos a região da nascente do Douro, a região desértica espanhola das Bardenas Reales e algumas belas pequenas povoações perdidas de Espanha. Podem ver uma selecção de fotos aqui: http://picasaweb.google.com/TodayAdventure/HUMM2008 . Fui na DR 350 que se portou exemplarmente, apesar de uns barulhos na transmissão ou rolamentos e fiz a viagem de volta sem tocar no pedal do travão de trás, pois o calço tinha ido à vida.

Zé Paulo.

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ALGUMAS FOTOS DO ALBUM

Trás-os-Montes em flor

  1. Camera: Nikon D90
  2. Aperture: f/5.6
  3. Exposure: 1/640th
  4. Focal Length: 200mm

Folia de Primavera

  1. Camera: Nikon D90
  2. Aperture: f/5.6
  3. Exposure: 1/400th
  4. Focal Length: 200mm

Luz divina

  1. Camera: Nikon D90
  2. Aperture: f/3.8
  3. Exposure: 1/4000th
  4. Focal Length: 24mm